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“Não existe um paciente de Itaperuna internado com Covid na UTI do hospital”

O médico Eugênio Carlos Tinoco conversa conosco sobre a situação do coronavírus dentro do Hospital São José do Avaí

O médico Eugênio Carlos Tinoco conversa conosco sobre a situação do coronavírus dentro do Hospital São José do Avaí

Por Marcelo Nascimento

Foto Raul Murito

Segundo números oficiais divulgados pela Prefeitura de Itaperuna, até hoje, 07 de maio, a cidade conta com 399 casos notificados para Covid, sendo que desses 22 foram confirmados. Na tabela apresentada ainda constam que foram realizados 176 exames, sendo que 141 foram descartados e 13 aguardavam resposta. Enquanto a prefeitura segue atuando numa ponta, o Hospital São José do Avaí segue na outra com suas diretrizes próprias acordadas com o Ministério da Saúde.

Na manhã de hoje, conversamos com exclusividade com o diretor do hospital, o médico Eugênio Carlos Tinoco, sobre a situação da pandemia dentro das paredes daquela instituição e ele nos conta tudo o que sua equipe vem fazendo no combate ao Covid-19.

No dia 5 de março houve o primeiro caso de Covid-19 registrado no Estado do Rio, na cidade de Barra Mansa. Nesta época o São José do Avaí já se preocupava com o alastramento da pandemia para o lado de cá?

Já, tanto é que dia 3 de março tivemos uma reunião com o secretário estadual de saúde no Rio e levamos o protocolo de contingenciamento de quais seriam as medidas que o hospital iria tomar.

Então o hospital já estava se antecipando?

Já, tanto é que quando entreguei o plano, eles disseram: “mas vocês já fizeram isso”?  A gente já tinha separado leitos e tudo mais.

Como é que foi feito esse plano de contingência do hospital?

Isso foi feito com o Rodrigo Carneiro, nosso infectologista, junto com os grupos gerenciais sobre quais seriam as medidas que teríamos que tomar.

Deu muito trabalho. O hospital é um mundo, hoje tem áreas enormes, tem várias entradas e naquele momento precisávamos antecipar por onde seriam as entradas e saídas no que tange especificamente ao Covid. Não que a gente à época já tivesse algum caso aqui, mas precisávamos estar preparados pra isso, e assim foi feito.

Não falta nada. São dez leitos, dez monitores, dez respiradores.  O que precisa pro atendimento acordado com o estado nós temos. E, se logicamente a demanda aumentar, ainda temos mais leitos de UTI de retaguarda para atender.

Vocês separaram alas específicas do hospital para o Covid?   

Até não termos caso confirmado, todo mundo entrava ali pela Emergência Integrada.  Colocamos uma área ao lado pro paciente poder ser atendido e a partir do momento que a situação foi se confirmando a gente lançou mão de um projeto de colocar uma ala no hospital exclusivamente pra Covid, desde CTI até quartos.

Mas já estão funcionando?

Não. O que está funcionando é o CTI Geral 2 onde temos dez leitos. Temos  mais vinte leitos de enfermaria no quarto andar que estão separados para atendimento de pacientes de Covid que não necessitem de CTI. Esses leitos estão acordados com a Secretaria de Saúde do Estado.

Vamos falar de números efetivos. O SUS abriu quantas vagas pra Covid-19 dentro do São José do Avaí?

Dez vagas de UTI e vinte de enfermaria.

É verdade que o SUS paga mais para atendimento de Covid do que para H1N1, por exemplo?

Sim! É em torno de 1,600 reais para Covid e pras outras em torno de 800 reais.

Sim! Tivemos cinco colaboradores que tiveram seus testes confirmados, foram afastados, tratados, observados e todos já voltaram para suas funções totalmente curados.

Qual a estrutura real do hospital hoje em relação a UTI, respiradores e todos os equipamentos demandados para atendimento a um paciente com Covid?

Não falta nada. São dez leitos, dez monitores, dez respiradores.  O que precisa pro atendimento acordado com o estado nós temos. E, se logicamente a demanda aumentar, ainda temos mais leitos de UTI de retaguarda para atender.

Além dos contratados pelo SUS?

Sim! E vale ressaltar que temos vinte leitos de enfermaria contratados pelo SUS e até o momento só um deles está sendo utilizado.

Quantos internados por Covid nós temos no hospital hoje?

Hoje no CTI temos sete. Um paciente em enfermaria.

Qual a faixa etária desses pacientes internados?

Está na faixa etária normal dos 60 a 65 anos, mas já teve paciente de 38, de 50. Teve um paciente que internou nessa unidade e tinha 104 anos.

Então, além da preocupação com o melhor atendimento ao paciente com Covid, queremos dar a tranquilidade à população que precisa vir ao hospital se tratar de alguma doença e não vem pelo medo de contrair coronavírus.

Quais foram os sintomas mais comuns entre todos?

O que chama a atenção é a falta de ar e tosse.

O hospital tem o teste de Covid pra atender todo mundo que precisar?

O hospital tem o teste rápido, mas que não disponibiliza pra todo mundo. Só disponibiliza pros colaboradores que apresentam sintomas e para os pacientes que entram com sintomas e necessitam de confirmação. É bom falar sobre isso, porque em nenhum lugar tem sobrando. A gente tenta comprar, mas com a alta demanda, nem sempre tem pra entregar.

O boletim do hospital aponta um óbito por Covid. Fale sobre ele.

Esse paciente já chegou com um quadro muito grave, fez teste, foi confirmado após o óbito. Ontem tivemos outro óbito de um paciente proveniente de São Fidélis, que permaneceu poucas horas devido a gravidade do quadro.

ATUALIZAÇÃO: Na data de hoje (08 de maio) o boletim do HSJA no Instagram já contabiliza mais um óbito.

Temos quantos pacientes de Itaperuna internados no hospital por Covid?

Não temos hoje na UTI nenhum paciente de Itaperuna. São todos de fora como Pádua, Miracema, Aperibé. Tem paciente até de Nova Iguaçu.

Queria que você falasse sobre as especulações que giram em torno de que o número de pessoas internadas seria maior do que os divulgados.

O hospital não tem qualquer interesse em divulgar notícias falsas ou omitir dados. Se você analisar, desde a entrevista que dei pra ESTILO OFF naquela Live no Instagram, eu apontei a questão da histeria que determinadas notícias de blogs sensacionalistas causam na sociedade. Isso não ajuda a ninguém. O hospital atende o que chega pra gente. Temos um boletim diário em nosso Instagram @hsjaitaperuna e lá consta a realidade. E iríamos omitir por quê? Se omitirmos, estaremos dizendo para as autoridades de saúde que não existe paciente e se não existe paciente o hospital não recebe pelo atendimento. Quem é que vai pagar pelo que não existe? O hospital só recebe se atender.

Houve casos de funcionários do hospital que tiveram Covid?

Sim! Tivemos cinco colaboradores que tiveram seus testes confirmados, foram afastados, tratados, observados e todos já voltaram para suas funções totalmente curados.

Como em todo o mundo, não há confirmação de estudo da eficácia garantida da hidroxocloroquina nesse sentido. Mas, por exemplo, tivemos três pacientes que saíram do CTI direto pra casa e todos foram tratados assim. Se não tratássemos dessa forma eles sairiam? Não sei. Então preferimos fazer do que arriscar não fazer.

Como é feita hoje na prática a triagem para casos de Covid e a logística de remoção e atendimento?

Na maioria das vezes esses pacientes vem da UPA ou do município deles com confirmação. Se ele chega com a situação grave, disponibilizamos um local em que ele vai entrar, ser atendido e vai direto pro CTI exclusivo pra Covid. Hoje temos um projeto de fazer uma entrada exclusiva para pacientes com suspeita de Covid, que será na área lateral do hospital com toda a infraestrutura adequada para esses casos. Teremos um atendimento exclusivo, um elevador exclusivo e todo paciente será encaminhado diretamente pro quarto andar, que é o andar separado para esses casos. Lá terá toda uma equipe mais que preparada e inclusive, estamos com a intenção de levar o CTI 2 para lá também para que tudo relacionado ao Covid fique restrito neste setor e o restante do hospital fique para atendimento dos casos cotidianos.

Então quando vocês planejam toda essa infraestrutura e logística é porque acreditam num aumento significativo de contaminados por aqui?

Não é isso. Minha percepção sempre foi a de que essa pandemia não chegaria com muita força por aqui. Estamos fazendo por uma questão de cuidado e porque também o hospital deixou de receber muito paciente com outras demandas pelo medo de contrair Covid. Então, além da preocupação com o melhor atendimento ao paciente com Covid, queremos dar a tranquilidade à população que precisa vir ao hospital se tratar de alguma doença e não vem pelo medo de contrair coronavírus. Temos hoje um andar inteiro fechado há mais de dois meses. São 150 leitos disponíveis sem que ninguém os use, tudo pelo medo do Covid. Todo mundo hoje acha que só morre por Covid. Tem gente com doença cardiovascular, com tumor e outras doenças e simplesmente deixam de vir se cuidar.

Qual a diferença entre a estrutura do hospital São José do Avaí e o Centro de Referência montado pela prefeitura de Itaperuna para atendimento aos pacientes com Covid?

Sinceramente não posso te dizer, porque não sei o que tem lá. Não sei se tem profissionais preparados. Fica difícil te dar uma resposta. Entendo que para um atendimento de qualidade num CTI precisa-se de um médico intensivista e profissionais de enfermagem qualificados para CTI. Não se pode, por exemplo, pegar um médico recém-formado e colocar pra atendimento num CTI. Um bom médico desse ramo leva de três a quatro anos para se formar numa boa residência. E hoje temos poucos profissionais nessa área. Mas a prefeitura vai ter que contratar profissionais desse naipe, além de profissionais de enfermagem com essa qualificação.

Sim, mas canso de ver gente que anda pelas ruas sem máscaras. As aglomerações em frente às lojas de departamento ou nos bancos e casas lotéricas são vergonhosas, é um horror.

Muito tem se falado no uso da cloroquina e recentemente do remdesivir no combate ao Covid. O que você acha desses medicamentos?

Hoje todos os pacientes do hospital que tem suspeita de Covid usam hidroxocloroquina,  azitromicina e heparina. Se é bom ou é ruim? É o protocolo do hospital e também de vários lugares. Já o remdesivir é uma droga que começou a se falar lá nos Estados Unidos, mas que aqui eu não tenho notícias.

Qual o resultado efetivo da cloroquina?

Como em todo o mundo, não há confirmação de estudo da eficácia garantida da hidroxocloroquina nesse sentido. Mas, por exemplo, tivemos três pacientes que saíram do CTI direto pra casa e todos foram tratados assim. Se não tratássemos dessa forma eles sairiam? Não sei. Então preferimos fazer do que arriscar não fazer.

Olhando os números oficiais do Estado, percebe-se que um maior número de infectados está nas maiores cidades, mas não se ignora o fato de crescimento em cidades menores. Você acredita que a liberação pra abertura do comércio vai impactar no aumento da proliferação do vírus?

Acredito que se as medidas de distanciamento forem adotadas pelo comércio, não vai haver esse impacto. Acho que tudo tem que ser feito de forma correta. Os comerciantes tem a responsabilidade de fazer a coisa direito, de oferecer as medidas de segurança adequadas.

E a população em geral também.

Sim, mas canso de ver gente que anda pelas ruas sem máscaras. As aglomerações em frente às lojas de departamento ou nos bancos e casas lotéricas são vergonhosas, é um horror.

Você acredita na possibilidade de colapso na saúde por aqui?

Muito se fala que os leitos de UTI estão colapsados. Há anos que trabalho na área e sempre se questiona o fato de não ter leito de UTI disponível para algum paciente de SUS. Quando que você viu leito de UTI de SUS estar vago? Sempre esteve cheio. Agora com o Covid está tudo cheio? Vi uma notícia essa semana que me chocou. O Hospital Geral do Bonsucesso, no Rio, que é hospital terciário que faz transplante de fígado e rim foi todo fechado só para atendimento a Covid. O hospital parou com os demais atendimentos. Você imagina uma estrutura daquelas com trezentos leitos só para atender Covid e antes de ontem tinham 18 pacientes. E todos os demais pacientes com problemas de fígado e rim não podendo ser atendidos por conta da expectativa do Covid.

Você acredita que em quanto tempo teremos uma vacina?

Pelo que a gente ouve, acredito que lá pra setembro ou outubro teremos boas notícias.

Pra gente finalizar. Fora a questão do Covid, como está a situação do hospital hoje em relação à crise?

Estamos também em meio à crise. Diminuiu e muito o número de internações e cirurgias nesse período pelo fato que já citei, que é o medo das pessoas virem se tratar pelo receio de contrair Covid. Teve uma caída brusca na receita e um aumento exponencial de preços de EPI´s (Equipamentos de Proteção Individual) e nos gastos em geral. O São José do Avaí conta hoje com 1.439 colaboradores e com a receita caindo e o gasto aumentando, temos  que continuar pagando todo mundo, então tivemos que, como em todo lugar do país, tomar medidas de contenção. Estamos fazendo um acordo com o sindicato dos profissionais de saúde para que não precisemos demitir ninguém, pois se precisarmos demitir não será um número pequeno e eu não quero que isso aconteça. Mas precisamos de alguma ação de contenção como uma redução de 15% nos salários de todos os colaboradores, do administrador ao mais baixo, com exceção daqueles que recebem o mínimo, que hoje é de R$ 1.284. Em contrapartida manteremos uma estabilidade de um ano no emprego. Acredito que conseguiremos o acordo, mas sabe como é, nem Jesus Cristo agradou a todo mundo.

Essa dificuldade financeira toda então por falta de pacientes?

Não só isso, mas de falta de recebimento de verbas a que temos direito. A partir de fevereiro deste ano a gestão de recursos que o município fazia com verbas do estado passou a ser feita pela secretaria de estado diretamente pra nós. Só que nos meses de fevereiro e março nós não recebemos nada. Recebemos o mês de abril, mas os dois meses atrasados nos causa um impacto enorme nas contas. A gente sabe das dificuldades do estado, mas nós estamos na linha de frente no atendimento a saúde e temos os compromissos para honrar e sem receber os recursos a que temos direito, como faremos para honrá-los? Vamos fechar as portas? Hoje nossa maior fonte de renda é o SUS e estamos nessa dificuldade de recebimento. Isso somando-se ao fato que já falei da falta de paciente. Antes da pandemia fazíamos de 50 a 60 cirurgias ao dia e hoje estamos fazendo de 20 a 25.

Estamos fazendo um acordo com o sindicato dos profissionais de saúde para que não precisemos demitir ninguém, pois se precisarmos demitir não será um número pequeno e eu não quero que isso aconteça.




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