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As angústias e medos dos profissionais de saúde de Itaperuna que convivem na linha de frente do combate ao vírus 

As angústias e medos dos profissionais de saúde de Itaperuna que convivem na linha de frente do combate ao vírus 

Por Vitória Pontes

Thayná Cardoso

Enfermeira

Desde que a COVID-19 chegou por aqui, a enfermeira Thayná Cardoso, de 25 anos, não se lembra de ter tido um momento de tranquilidade.

Sua profissão, assim como muitas outras, a expõe diariamente ao inimigo perigoso e invisível. Durante o seu plantão no hospital, a profissional vive na corda bamba entre o receio de contrair o novo coronavírus e a vontade de salvar vidas.

No momento vivido, tudo pode ser motivo de contaminação: desde encostar numa bancada contaminada até fazer gestos simples, como se distrair e levar uma das mãos ao rosto.

Ao deixar o plantão, o estado de alerta constante só altera de cenário.

“Eu acordo às 6 da manhã, tomo um banho, preparo todas as minhas refeições do dia e arrumo meu uniforme que é lavado todos os dias. Tenho pensado bastante em qual é o meu grau de importância em meio a isso tudo e eu me sinto lisonjeada de estar nessa linha de frente.”

O perigo maior, no entanto, é o contato com os familiares das vítimas, potencialmente infectadas. São comuns os casos em que parentes que vivem na mesma casa, acabam infectados também.

“Além de enfermeira, eu sou esposa, filha, tia e neta e preciso pensar na minha família também. Assim que eu chego do plantão, deixo as minhas roupas em um local separado, entro em casa e vou direto tomar um banho demorado. Nada do que eu uso no hospital entra na minha casa, tudo é higienizado do lado de fora num cômodo próprio pra isso.”

O marido de Thayná, que assim como ela trabalha no hospital e está na linha de frente do combate ao coronavírus, segue as mesmas regras.

“Eu não posso ter uma pessoa trabalhando pra mim porque o risco de contaminação é alto, então depois de um dia cansativo, ainda tenho que fazer os trabalhos de casa e cuidar da minha cachorrinha. Tá difícil demais! Eu e meu esposo separamos um copo pra cada um, um talher e um prato e é apenas isso que nós usamos diariamente. Às vezes me pego questionando quantas vezes eu lavei as mãos, uma coisa que jamais imaginaria meses atrás.” – conta Thayná.

 Eu e meu esposo separamos um copo pra cada um, um talher e um prato e é apenas isso que nós usamos diariamente. Às vezes eu me pego questionando quantas vezes eu lavei as mãos, uma coisa que eu jamais imaginaria meses atrás.

 

Daniela Frazão

Enfermeira Plantonista e Militar do Corpo de Bombeiros

Daniela Frazão sempre trabalhou com pacientes graves, mas para ela, nada se compara ao trabalho que os profissionais da saúde estão tendo que enfrentar nessa pandemia. 

“Eu não faço nenhum atendimento nos meus trabalhos sem utilizar rigorosamente os equipamentos de proteção individual e lavar as mãos exaustivamente é algo que tenho feito religiosamente. Ao chegar dos plantões, deixo os sapatos na garagem (estou usando um par somente para sair de casa). Entro na área de serviço, tiro minhas roupas usadas e as coloco diretamente na máquina de lavar. Só aí consigo tomar banho e uso um banheiro separado do que é usado pela minha família. Tudo que eu trago dos plantões é higienizado com álcool a 70% antes de entrar em casa. Porém, apesar de todos os cuidados rigorosos, tenho muita angústia e medo do que posso estar trazendo para casa.”

Até o fechamento desta matéria na tarde de sábado (02), a Prefeitura de Itaperuna informava em suas redes sociais que havia registro de 370 casos notificados de COVID-19, desses, 14 casos foram confirmados. O número é baixo perto do que a capital do Estado enfrenta, porém, não deixa de impressionar.

“Eu não tenho medo de realizar a minha função, pois foi isso que escolhi fazer na vida. Mas confesso que tenho muito medo de causar algum mal àqueles que eu amo. No entanto, depois de um dia exaustivo de trabalho, eu preciso dos beijos e abraços dos meus filhos e do meu marido pra me sentir melhor. É isso que regula minhas ansiedades, meus medos e que mantém a minha esperança. Ter o apoio da minha família é a minha maior motivação e força para me levantar e cumprir o meu papel profissional. Sei que posso colocá-los em risco, mas peço a Deus para protegê-los. Sempre digo a Ele que estou tentando cumprir o meu papel e cuidar daqueles que necessitam do meu trabalho, como se pudesse clamar por proteção.”

Mas confesso que tenho muito medo de causar algum mal àqueles que eu amo. No entanto, depois de um dia exaustivo de trabalho, eu preciso dos beijos e abraços dos meus filhos e do meu marido pra me sentir melhor.

 

Alex Won-Held

Supervisor técnico em radiologia

Esse também é um drama vivido pelo supervisor técnico em radiologia, Alex Won-Held. Profissional da saúde há 20 anos, mesmo estando diariamente exposto aos riscos que um hospital oferece, ele nunca se imaginou passando por uma situação como essa.

“Se tratando de hospital/clínica nós temos constantemente uma rotina de cuidados. A vida numa unidade de saúde é sempre tensa porque nós lidamos com vidas e doenças de todas as formas, às vezes até mais letais que a COVID-19. O meu maior medo no momento é me contaminar, ser assintomático e acabar transmitindo a doença para outras pessoas. Acredito que o pior de tudo é que não existem testes pra todo mundo e isso complica a vida dos pacientes e dos profissionais da saúde.”

Durante as 8 horas em que permanece no turno, o profissional vive em constante aflição.

“Eu trabalho na linha de frente atendendo a todos os pacientes suspeitos e confirmados com a COVID-19. O meu papel é realizar a Tomografia Computadorizada, exame que ajuda a determinar a situação dos pulmões do paciente. Todas as manhãs, eu acordo sem saber o que virá pela frente durante o plantão. Às 6:40h já estou de pé e o meu primeiro pensamento é que irei enfrentar mais um dia difícil com alto risco de contaminação. Quando volto do trabalho, lá pelas 6 da tarde, todas as roupas e calçados que usei são lavados separadamente. Depois de tomar banho, como eu não tenho apresentado sintomas, não fico isolado e faço questão de passar um tempo com a minha família. Às vezes nós precisamos dar de cara com a morte para dar valor às coisas simples da vida. Os meus utensílios pessoais como copo, prato e talheres também são separados junto com outras coisas de uso comum.”

Todas as manhãs, eu acordo sem saber o que virá pela frente durante o plantão. Às 6:40h já estou de pé e o meu primeiro pensamento é que irei enfrentar mais um dia difícil com alto risco de contaminação.

 

Helena Nunes

Médica

*Helena soltou os cabelos apenas para registrar o momento, até porque no hard work os cabelos são muito bem presos.

A jovem médica Helena Nunes, de 24 anos, é uma das profissionais que pegou o diploma após a publicação de uma portaria pelo Ministério da Educação flexibilizando a atuação de profissionais de saúde no combate ao coronavírus.

Ao invés da tão sonhada festa de formatura, Helena teve todos os seus planos pessoais pausados para prestar assistência à população durante a pandemia.

“Eu trabalhei como acadêmica em uma unidade de triagem da COVID-19 e agora já atendo aos pacientes como médica. O meu trabalho é examinar enfermos com síndromes gripais, fazer o diagnóstico diferencial com outras patologias de acordo com os exames físicos do paciente e se caso houver alguma suspeita, histórico de contato com algum paciente positivado, ou dificuldade respiratória, eu solicito os exames de imagem e laboratoriais.”

Além de lidar com o coronavírus, a médica também conta ser constante o atendimento a pacientes com crises de ansiedade e pânico por medo de se contaminar e por estarem de quarentena.

“Ser assintomática, inclusive, é o meu maior medo, já que 80% dos casos são assim. O meu pai faz parte do grupo de risco por ter distúrbios respiratórios, então eu tenho redobrado os cuidados necessários para manter a mim e a quem eu amo longe dos perigos do coronavírus. Assim que eu chego em casa, meu calçado e a minha mala de plantão ficam do lado de fora e a roupa e o jaleco já vão direto pra máquina de lavar, logo depois eu tomo banho. Os talheres e objetos de uso pessoais também são separados, o mais importante pra mim no momento, é cuidar de quem eu amo.”

Ser assintomática, inclusive, é o meu maior medo, já que 80% dos casos são assim. O meu pai faz parte do grupo de risco por ter distúrbios respiratórios, então eu tenho redobrado os cuidados necessários para manter a mim e a quem eu amo longe dos perigos do coronavírus.

Fernando Goulart

Interno de medicina

Em contrapartida à corrida contra o coronavírus, mister se faz a presença de médicos para atender à população com outras doenças tão graves quanto. Ou seja, além de lutar contra a pandemia, ainda é preciso que os profissionais da saúde se dividam para tratar os enfermos com doenças crônicas e/ou agudas. Quem tem vivido isso de perto, é o estudante de medicina da UNIG, Fernando Goulart, de 22 anos.

Assim que a epidemia de covid-19 começou a dar sinais de que se agravaria no Brasil, o jovem se viu diante de duas alternativas: ficar em casa ou se aliar à força tarefa que luta por vidas. Com as aulas canceladas e o internato (estágio no atendimento) funcionando em esquema de plantão, um dos sentimentos que tomou conta do futuro médico foi o de frustração. Depois de 4 anos estudando apenas teorias, no momento em que ele aprenderia a medicina na prática, as aulas simplesmente foram suspensas.

Atualmente, Fernando vai duas vezes por semana à Pádua, cidade vizinha à Itaperuna, para ajudar nos plantões que estão cada vez mais lotados.

O jovem foi deslocado para o hospital campanha montado no CIEP da cidade que não recebe doentes com sintomas de COVID-19. O manejo de profissionais de saúde nesses hospitais montados temporariamente, serve para que os pacientes com outros tipos de doenças possam ser atendidos sem risco de contágio.

“A população está apavorada porque o número de mortos e de casos suspeitos só vem aumentado com o passar do tempo. Os familiares também ficam muito abalados, o que exige da gente bastante sensibilidade para lidar com o caos que se instalou por todo país. Dentro do hospital de campanha, o clima entre os profissionais também é tenso. Máscaras e álcool em gel tem sido itens indispensáveis para quem lida diariamente com um inimigo mortal e invisível.”

Fernando decidiu aceitar o estágio por conta da experiência proporcionada, já que a última pandemia tão mortal quanto a de COVID-19, foi a Gripe Espanhola que ocorreu há 100 anos, ocasião em que cerca de 30% da população mundial contraiu o vírus e as estimativas de mortes ficaram entre 17 e 100 milhões. Aprender a lidar com esse tipo de catástrofe, certamente fará dele um profissional mais bem qualificado e ciente de seu dever com a sociedade.

Antes da crise na saúde, a vida do aspirante à médico era como a de qualquer outro aluno no internato: aula prática durante a manhã e algumas atividades na parte da tarde. A rotina no hospital onde o jovem era interno basicamente se resumia em passar a visita com os médicos-professores, aprender sobre as patologias e conhecer mais sobre as doenças. O professor – um médico experiente e bem conceituado – explicava aos alunos como seria feito o tratamento e quais exames seriam pedidos. Atualmente no estágio, por não ser formado, Fernando apenas acompanha o profissional formado fazendo o seu trabalho, porém, a lição de estar lidando de frente com uma pandemia, o jovem vai levar pra vida toda.

Muitas pessoas já tiveram esse vírus e ele se manifestou de forma branda, outros nem tanto… Eu acredito que o grande problema é a superlotação no hospital e a superlotação nas UTIs, é importantíssimo que todos respeitem as regras de isolamento social para que nós possamos voltar o mais rápido possível à vida normal. – finaliza ele.




Redatora & parceira

“Não existe um paciente de Itaperuna internado com Covid na UTI do hospital”